MORA NA FILOSOFIA


(foto: Joel Vargas / PMPA)

Roger Lerina

A atriz, dramaturga e diretora Georgette Fadel marca presença neste Porto Alegre Em Cena com dois trabalhos: "Afinação I" e "Guerrilheiras ou para a Terra Não Há Desaparecidos". O primeiro título teve sessões na quarta (13) e quinta-feira (14/9), no Teatro do Sesc, para plateias convidadas a assistirem à obra como se estivessem em uma sala de aula. Com as luzes do auditório acesas, Georgette convida os espectadores-alunos a apanharem prancheta, papel e caneta, à disposição na boca de cena, enquanto aguarda sentada com um viololoncelo. Ao informar que há uma nota dissonante, a intérprete dá início a um antiespetáculo que passeia entre a conferência, a performance e o teatro.

Georgette corporifica Simone Weil (1909 – 1943) para falar sobre a grave desafinação social que é o vilipêndio ao pensamento racional, utilizando-se para tanto de textos da filósofa e ativista política francesa e dos pensadores Hegel e Marx. A costura dramatúrgica é emprestada de Brecht e sua "Santa Joana dos Matadouros" – peça cuja protagonista idealista acredita na conciliação entre empresariado e proletariado, capital e trabalho. Com clareza e empolgação, Georgette-Simone denuncia o perigo da contaminação dos discursos político, econômico e religioso pelo sentimentalismo refratário à razão e à reflexão histórica.

Durante "Afinação I", a audiência é instigada a participar – a artista inclusive chama alguém para escrever com giz certos conceitos e palavras no chão de linóleo. Na quinta-feira, essa interação chegou ao crispamento quando um espectador discordou de um ponto da retórica de Georgette: ambos debateram por algum tempo sobre o tema, sem entrarem em acordo, até que a atriz decidiu seguir adiante. Porém, durante o restante da apresentação, Georgette retornou com frequência ao tópico de discórdia, enfatizando seu argumento – o que provocou certa tensão no ambiente. Perto do final, em meio à leitura de um capítulo de "O Capital" em que Marx deplora a exploração do trabalho infantil no norte da Inglaterra, Georgette lançou uma indagação direta ao homem com quem discutira antes, acompanhada de um olhar duro e inquiridor. O espectador retirou-se logo depois, antes do desfecho.

Experiência singular e instigante, que lança mão do distanciamento crítico brechtiano para melhor compreender realidades do passado e do presente, "Afinação I" oportunamente ajuda no entendimento do mecanismo que move discursos irracionais falaciosos como os que pregam a censura a exposições de arte. Em sua lição didática, que às vezes se distancia em excesso do jogo cênico, Georgette Fadel ensina que não tem pra que rimar razão com sentimento.