palavra do secretário municipal

da cultura 2020

 

Uma borboleta se debate no vidro da minha janela nesse exato instante. Quer entrar, ocupar a casa, desbravar um horizonte desconhecido, mas a parede invisível está ali, impedindo sua intenção. A borboleta e a parede fechada, beleza e tensão.  Penso que a cultura no Brasil é um pouco como essa borboleta. Linda, asas laranjas, o laranja e o preto se misturando em um movimento que embola seu contorno e tisna suas asas. Essa borboleta mostra ansiedade e uma fragilidade absoluta. Seus movimentos querendo ocupar espaços além dos já ocupados visivelmente a esgotam. Artistas brasileiros, nesse estranho ano de 2020, na tentativa de atravessar vidros invisíveis, e todos os obstáculos de diferentes ordens e tamanhos que a pandemia nos impõe, se deparam com o desafio de encontrar caminhos e linguagens que não lhe roubem as asas e as cores. Não é fácil. Não será. 

 

Sabemos todos, nós que nos ocupamos e preocupamos com cultura, que artistas e técnicos brasileiros tiveram um ano duríssimo. Teatros e espaços artísticos fechados, à mingua,  profissão cortada sem perspectiva de uma volta real, interdição que já dura meses, silêncio e escassez que, ao mesmo tempo em que escancaram uma luta desigual, mostram uma grandeza criativa, altiva e esplendorosa, grandeza que não se curva às adversidades e tragédias da hora. Eventos e programações cancelados e transferidos, tolhidos como a borboleta do outro parágrafo e que, como ela, batem asas buscando novos espaços onde a arte e a beleza tenham voz e vez. 

 

O que dirá o futuro sobre esse surpreendente ano onde todos tivemos nossas vidas alteradas por novas rotinas, gel e máscaras em abundância? Não sei, ainda estamos no meio da travessia, governo e sociedade civil falando sem parar, agitando bandeiras e ideologias controversas em um mundo paralisado, cujo diagnóstico é rarefeito e nebuloso. Mas uma coisa o futuro certamente dirá: que, com todas as adversidades e problemas, 2020 sediou a 27ª edição do Porto Alegre em Cena, e que o festival conseguiu cumprir uma programação surpreendente, sem dar mole para a quantidade gigantesca de empecilhos à sua realização. Não é pouco. Não foi e não será para poucos. E, por isso, não preciso disfarçar o orgulho ou diminuir a importância e o tamanho dessa façanha. Fazer um festival de teatro, com todas as inovações e novidades formais que esses tempos pedem e impõem é um desafio maior, que a equipe do festival encarou de peito aberto, com bravura e resultados entusiasmadores. 

 

Certamente os desafios de fazê-lo pulsar com potência não serão pequenos. Uma edição virtual, para além de sua novidade, é um modelo que deixará frutos e sementes, apesar das restrições a que hoje estamos submetidos. Soma de muitos esforços, sonhos e teimosias, o Em Cena  se mostra humano, demasiadamente humano em 2020, vacina contra a caretice que insiste em desconsiderar a cultura como força motriz, que quer enquadrar ousadia, rebeldia e provocações sob a tutela de um código comportamental que rejeita novidades e atritos. 

 

Todos nós estamos mais sós, mais virtuais, mas, ao mesmo tempo, mais humanos e reais. É um paradoxo que uma programação como a do presente ano nos mostre isso e nos aponte novos caminhos, artísticos e sociais. Com todas as adversidades do tempo presente, buscando antigos e novos parceiros, ainda sob o guarda-chuva da Secretaria Municipal da Cultura, como acontece há 27 anos, tenho especial carinho por essa edição tão diferente. 

 

O Em Cena sempre cumpriu um papel artístico desbravador em Porto Alegre. Muitas vezes incompreendido, seguimos acreditando e aprendendo. Sempre. Numa cidade  cheia de questões pendentes, é uma bênção um evento como o festival completar 27 anos. Agora sob a coordenação geral de Fernando Zugno, que está se saindo muito bem nessa tarefa complexa e, vejo a ciranda do tempo embaralhar todas as previsões pessimistas. O Em Cena está vivo, pulsa, desafia o coro dos (des)contentes e, mais uma vez, deixa a cidade mais leve e colorida. Em tempos de pandemia, definitivamente isso não é pouco. 

 

É hora de todos abrirem a janela para essa bela borboleta, o nosso festival, entrar.  

 

 

Luciano Alabarse

Secretário Municipal da Cultura

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