palavra do diretor geral 2021
 

A primavera nos dentes

Fernando Zugno

 

A grande equação pra mim nesse momento era como encontrar as flores no meio desse caminho suntuoso que foi se formando ao longo desse ano de 2021. Com os reflexos da pandemia mais evidentes, uma crise sanitária ainda mais acirrada andando em paralelo com o processo de vacinação e uma ideia de esperança renovada, pra que a vida possa ser vivida com alegria. Então vieram os sorrisos de uma vida com encontros, com o retorno das atividades profissionais, aquilo que era dito essencial foi retornando muitas vezes de maneira desordenada… mas e a arte? E o essencial da arte? E a criação da beleza que se faz ainda mais urgente nesses tempos de uma violência cotidiana escrachada?

 

Ora pois, se a arte é um sujeito de conhecimento através da estética e com ética, é bastante clara a importância da existência e realização de um festival que reúne em um espaço de tempo uma pluralidade de pensamentos e produz diversas formas de beleza. Se a violência é inerente  a condição humana, então que seja através da arte que a gente tome contato com ela. Do contrário, estaremos perdidos. Dancemos, dancemos…

 

Com essa gana de continuar dançando é que enfrentamos todas as dificuldades da pandemia - os medos, das mudanças na sociedade, as crises que nos impediram de, pela primeira vez, não ter a correalização da Secretaria Especial da Cultura do Ministério do Turismo através da Lei Rouanet - e muito orgulhosamente colocamos mais uma vez uma bela e potente programação na rua, reunindo mais de 25 atrações nacionais e internacionais entre espetáculos, performances, instalações, exposições, falas, oficinas, conversas…

 

Partimos da ideia de criar uma programação de performances urbanas devido ao sucesso das realizadas no ano passado. Nessa busca de entregar algo instigante e que interferisse no cenário urbano da cidade me encontrei com o artista Xadalu que me emocionou ao dividir comigo o trabalho que estava desenvolvendo, chamado Existe uma cidade sobre nós. Uma obra que resgata o conhecimento ancestral Guarani sobre esse território sagrado onde se construiu a cidade de Porto Alegre. A partir dessa obra e dessa história contada pelo Cacique Cirilo no dia de abertura do Festival no Theatro São Pedro, é que comecei a pensar toda programação do festival. Passou a se tratar disso: não bastava intervir na cidade de Porto Alegre, era preciso sobrepor a ela outros conhecimentos, outras histórias que foram marginalizadas pelo processo colonial. Pois esta obra que hoje está finalizada e exposta no Rio de Janeiro será colada pelos muros da cidade, como é de praxe no trabalho do artista, e outra, inédita, chamada Jardim Guarani, está em criação e será exposta no foyer nobre do Theatro São Pedro junto à fala do Cacique.

 

Começamos a montar uma programação com obras como Camaleões de Brasília, Esquadros capitaneado em Porto Alegre pelo projeto Projetores pela Cultura e com artista de videoarte de todo Brasil, Entidades de Jaider Esbell de Roraima e mais cinco espetáculos de Porto Alegre: Anatomia Temporária, Voluntários da Pátria, Respira Não Pira, Kuumba e Bando.

 

Com isso quisemos também provocar o retorno dos encontros do público com as artes vivas, com a imersão, a experiência e a reabertura de espaços cuturais e o retorno do público às salas de espetáculo. Com o apoio do projeto Iberescena montamos uma linda programação sulamericana com Como as coisas chegaram aqui? do artista multimídia Ivan Haidar (Argentina); Infinitos, da Colômbia, de Carmen Gil que irá criar uma nova versão da obra a partir de uma residência artística com as atrizes Sandra e Miriã Possani, mãe e filha que se encontram pela primeira vez no palco nesse trabalho e Ela e os porcos da Ignácia Gonzáles, do Chile.

 

Em meio ao campo de batalhas de criação dessa programação, definindo programação, orçamento, aprovações e não aprovações dos projetos de incentivo a cultura, conseguimos confirmar novas parcerias através do financiamento do PRO-CULTURA RS e enriquecer a programação com alguns trabalhos da maior importância para o teatro brasileiro como Altamira 2042 da maravilhosa Gabriela Carneiro da Cunha que nos guia por relatos do rio Xingu e Fantasmagoria nº 2 com direção do Felipe Hirsch e seu coletivo Ultralíricos, agregando também um elenco local.

 

E, como o processo criativo é feito de pequenos milagres, um dos espetáculos que já tinha saído da programação pelos altos custos técnicos, a videoinstalação Metaverse: estamos no fim de algo voltou graças ao feliz encontro do festival com a Fábrica do Futuro, um complexo multidisciplinar, que acolheu o evento e nossa programação híbrida com transmissão ao vivo e os encontros da equipe. Para a nossa surpresa, o espaço tem uma sala de projeções perfeitamente equipada para receber esse trabalho deslumbrante que coloca o público literalmente dentro de uma realidade paralela digital.

 

Esse ano, com muita alegria, também retomamos o projeto de descentralização junto a programação oficial do festival. Grupos locais e nacionais irão se apresentar nas regiões de periferia da cidade e democratizar mais ainda a programação. Por falar nisso, esse ano, excepcionalmente, vamos fazer uma programação inteiramente gratuita justamente para estimular o retorno do público ao teatro. Tudo, é claro, com todo cuidado, respeitando ao máximo todos os protocolos sanitários e cuidando de todos detalhes para que equipes, artistas e público possam desfrutar dos espetáculos com segurança.

 

E é em meio a esse cenário maluco em que todos setores da cultura estão atingidos diretamente  e buscando se reestruturar e retornar aos encontros que colocamos esse festival na rua, pra encher nossa cidade de beleza e conhecimento em mais uma primavera. E é assim, com uma alegria proporcional aos desafios que veremos o artista brasileiro, entre os dentes, segurar a primavera.