palavra do diretor geral 2020
 

Enfim, uma pandemia! O céu deu sinal de desabamento reagindo às manipulações humanas. 

 

De alguma uma força estranha me atingiu para seguir no caminho que viemos trilhando no Festival e que, agora, modifica-se completamente não apenas na programação e linhas de curadoria, mas em seu formato. Transformamos os palcos em telas, fachadas de prédios, galerias de arte e ruas. Além da primeira edição de uma revista de arte que vem para ocupar um espaço especial na cidade e no país. Com a espinha ereta, vamos em busca da beleza, em busca da arte. Como escreveu Ana Maria Gonçalves em “Um Defeito De Cor” (livro obrigatório para toda/os a/os brasileira/os), pela voz da personagem narradora Kehinde, que conta do ensinamento do artista iorubá Abimbolá: “Ele dizia que um verdadeiro artista precisa saber contemplar, que a natureza era dona de toda arte, apenas emprestada aos homens.”

 

E acho que foi assim que chegamos até aqui, numa mostra de reivenção e de transformação da maneira de se manifestar artisticamente, assim como a forma como o público assiste e se relaciona com o teatro. Isso marca a programação de mais um Festival Internacional de Artes Cênicas Porto Alegre em Cena. Foi contemplando, buscando forças nos ensinamentos de quem vê o mundo de outra forma e se relaciona com a natureza de outra maneira, que fui juntando peças e forças pra realizar um festival de artes cênicas em meio a uma pandemia que assola um país já em crise. 

 

Comecei o ano de 2020 com a programação do Porto Alegre em Cena praticamente pronta. Precisava ainda passar uns dias em São Paulo e, então, arrematá-la. Dia 19 de março seria a estreia do espetáculo Língua Brasileira, do coletivo Ultralíricos e Tom Zé, no SESC Consolação. Eu queria ver a estreia porque já tinha em mente que seria um belo trabalho para abrir o 27º Porto Alegre em Cena. Mas dia 15 de março, quando saí de uma peça na Oficina Cultural Oswald de Andrade, sabia que não voltaria ao teatro tão cedo. Dia 16 de março antecipei meu vôo de volta pra Porto Alegre, usei máscara pela primeira vez e me enfiei em casa pra não mais sair.

 

Não vou usar esse espaço pra fazer um relato da minha experiência pandêmica, mas fato é que estamos diante de um produto cultural fruto desta pandemia. Foram precisos meses até entender que o novo vírus veio para ficar, que uma vacina ou o fim das contaminações demorariam a chegar e não poderíamos ficar inertes por tanto tempo. Eu não podia conceber a ideia de cancelar o festival. Era preciso que ele acontecesse do melhor jeito possível, não sabia qual, mas a máquina da cultura tinha que girar sua economia e sua arte.

 

Somente no final de maio decidimos fazer um festival virtual. Como cantou deusa Elza: “Chorei, não procurei esconder… Reconhece a queda, mas não desanima. Levanta, sacode a poeira e dá a volta por cima!”. Foi preciso radicalizar em um novo festival em programação, com outro formato, outro tempo, enfim, tudo! Já fazia parte dos meus pensamentos mexer na estrutura do festival. Não apenas propor novos modelos através da programação, mas arriscar outros formatos. Nunca pensei que seria assim, mas, afinal, lançamos mão do afastamento, da ausência, de uma nova relação com a casa, com o tempo, para refletir, contemplar e construir o que está diante de nós: um festival de artes virtual. De artes – no plural e na forma mais geral –, pois a interdisciplinaridade já era um desejo e uma realidade, mas que alcançou outro patamar nessa nova realidade. 

 

Sempre soube que não queria fazer um festival de espetáculos de palco filmados e colocados na web. Todavia, quando comecei a tomar contato com uma produção dramatúrgica já pensada pro universo virtual, online ou não, comecei a sentir aquele frisson novamente. O frisson de quem é atravessado por uma experiência, de quem se joga - mesmo estando em casa - num lugar novo e se deixa conduzir por imagens, textos, sons que causam sensações.

 

No entanto, percebendo os muitos trabalhadores que continuavam na labuta pelas ruas e esse fluxo que paulatinamente crescia nas calçadas, nos ônibus e suas paradas, nos carros, nas feiras e mercados, eu pensava como invadir as ruas sem ser irresponsável e colocar as pessoas em risco. Queria intervir no cenário urbano de maneira a levar essa sensação para as pessoas que precisavam estar nas ruas e, simultaneamente, levar as ruas para quem podia estar reclusa/o em casa.

 

Foi assim que criamos o projeto “Em Quadros”, que irá vestir parte da cidade com projeções de video-performances criadas por artistas de dentro das suas casas e projetadas de mais de 20 janelas, em diferentes bairros de Porto Alegre. Outro projeto é o de instalações-performances-urbanas-humanas em que grupos de artes cênicas da cidade criaram obras que irão surpreender e instigar motoristas, passageiros e transeuntes que estão pelas ruas. Ao mesmo tempo em que uma equipe de filmagem estará transmitindo essas apresentações ao vivo para nosso canal online: o “Canal em Cena”, onde estará reunida toda programação aberta do festival com conteúdos de arte para falar, ver e ouvir, das 11h às 22h, aproximadamente. Então, pode deixar o Canal em Cena e os seus sentidos ligados e deixa o festival entrar.

 

Por fim, para completar o que construímos afim de bem substituir aquela poderosa programação de teatros e galerias de arte cheia/os de deliciosas e pulsantes aglomerações, há a publicação Corpo Futuro (portoalegreemcena.com/corpofuturo). Foi uma enorme alegria nesta interminável quarentena poder construir uma revista de arte com conteúdos importantes de artigos, entrevistas, pinturas e fotografias de pesquisadores que vêm transformando os corpos presentes de olho no futuro. Uma revista grande para que, principalmente, as imagens pudessem tomar uma proporção de detalhe digna de contemplação, como quem está diante de um quadro. Corpo Futuro é a primeira edição dessa revista que veio para ficar. Seu nome é relacionado ao pensamento curatorial do Porto Alegre em Cena, que vem buscando, há alguns anos, entender a humanidade que zanza por aí, especialmente nesse território que hoje chamamos Brasil. 

 

A partir desse ano de 2020, buscamos, através de sociólogos, filósofos e, principalmente, artistas, refletir e discutir sobre três pontos bastante abrangentes e interligados: 1) as questões de gênero e pós-gênero; 2) a influência da computação quântica e da inteligência artificial na criação dos transhumanos e pós-humanos; e 3) as consequências do Antropoceno na exploração da natureza que nos pôs à beira de um colapso. E que reação terá o nosso corpo diante disso? E o corpo das árvores, da terra, dos rios, do céu?

 

Ao perceber o fracasso desse projeto de colonização europeu e a clareza dos ensinamentos deixados por indígenas, africana/os e mulheres, propomos a inversão do jogo: aprender com ela/es sobre como se relacionar com as outras espécies da natureza e suas respectivas comunidades. Quais outras formas de relações são possíveis para não sucumbirmos aos nossos próprios feitos?

 

São questões como essa que perpassam toda nossa programação feita com tanto tesão para nos encontrarmos, mesmo que telepaticamente, através das ideias.

 

Bom festival! 

Evoé!

 

Fernando Zugno

Diretor Geral

Travessa Paraíso 71 / CEP 90850-190 / Porto Alegre / RS / Brasil

Fone/WhatsApp: +55 51 99846-6457

E-mail: portoalegreemcenafestival@gmail.com