Porto Alegre em Cena - Festival Internacional de Artes Cênicas - poaemcena

diretor geral /2019

corpo-natureza

 

Com tantas discussões e perseguições ao corpo, fiquei com essa palavra em mente e encontrei nas próprias peças a grande questão do festival. É preciso falar, ver e lidar com o corpo. Pensar o Brasil a partir dos corpos que o constroem. Dos corpos que o destroem. Corpos. Humanidade. Antropologia. Antropoceno. O corpo líquido do vinho que se esvai de corpo sólido da garrafa que estilhaça, corpo da árvore, da ave, o corpo humano. Homem, Mulher, de todas as cores, de todos os sexos, discutindo a existência com suas diferenças. Corpos em cena, através da beleza, afinal somos todos natureza.

 

As falas de alguns líderes indígenas brasileiros mostram uma percepção de mundo tão inacreditavelmente bela e clara que resolvemos realizar nossa primeira co-produção com o Silêncio do Mundo, projeto incrível do Em Cena. Trata-se de uma residência artística com a performer Andreia Duarte, o ambientalista Ailton Krenak e os xamãs Davi Kopenawa e Levy Yanomami. Mostraremos em Porto Alegre o resultado do primeiro encontro de um trabalho que terá seguimento na Amazônia e em São Paulo. Esses importantes representantes da cultura originária brasileira estarão pela primeira vez em cena mostrando sua arte e falas impactantes sobre um outro mundo possível.

 

Como Protocolo Elefante, do grupo Cena 11, de Santa Catarina, dirigido por Alejandro Ahmed, que traz uma obra poética e bela a partir do exílio do elefante na eminência da sua morte. Happi, a tristeza do rei, do franco-camaronense James Carlès, um dos grande coreógrafos e bailarinos na França hoje, revela-nos questões ancestrais de seus avós arrancados de seu país para serem levados como escravos. É um momento impressionante na programação do festival, juntamente com a presença do ator etíope Dorcy Rugamba, que conta majestosamente, na primeira pessoa, a história de um conterrâneo adotado por uma família austríaca e todas as questões sociais que esse corpo negro africano enfrenta na Europa Ocidental. 

 

Da mesma forma que Gota d’água preta, de Jé Oliveira com Juçara Marçal que trabalha a obra de Chico Buarque e Paulo Pontes mudando tudo apenas ao contar essa história com um elenco majoritariamente negro e trabalhando a musicalidade que traz a força ancestral e a influência das religiões de matriz africana. Outras personagens reais aparecem com as peças Rosa, de Anja Panse, que dirige lindamente uma obra que traz questões contemporâneas a partir da história da filósofa e economista Rosa de Luxemburgo; e Margarida, em parceria com o projeto Concha, sobre a vida da guerrilheira paraibana Margarida Alves, em interpretação de Luz Barbara.

 

A abertura será com as poderosas Dakh Daughters, que darão o tom de beleza e força do festival com esse musical deslumbrante sobre amor, liberdade e violência que, aliás, será assunto no Em Cena com duas obras de Sergio Blanco, um dos mais importantes dramaturgos contemporâneos O próprio Sergio nos apresenta seu espetáculo-conferência As flores do mal e também seu texto A Ira de Narciso com direção de Yara de Novaes e interpretação brilhante de Gilberto Gawronski.

 

Panorâmina Insana (P.I.) é o retorno da Bia Lessa ao festival, dessa vez em parceria com Claudia Abreu, pra mais uma vez arrebatar a plateia do festival no Teatro do SESI com um espetáculo de cenário genial e interpretações maravilhosas. Outros é a segunda parceria do grupo Galpão, de Belo Horizonte, com o diretor Marcio Abreu a fazem mais um lindo trabalho cheio de performances, humor e música pra falar das inquietações do mundo atual, como a peça Ovo, de Renato Forin Jr., que traz questões sobre as relações familiares com o passar do tempo e o fim da vida.

 

Corpo-Acúmulo, da Kenia Dias, e Lobo, da Carol Bianchi, são duas criações geniais que vão acontecer em Porto Alegre com elenco local a partir de residências e oficinas de dez dias. Corpo-Acúmulo é uma investigação sobre a poética dos corpos, nossos excessos de acúmulos e de vazios, enquanto Lobo é um momento de ruptura no teatro no Brasil, tão radicalmente bela sobre paixão e sacrifício de corpos. Assim como o espetáculo E.L.A. que mostra o corpo potente e estranho da performer Jessica Teixeira, que fala de beleza e saúde.

 

Os dez espetáculos que compões o Prêmio Braskem em Cena mostram a criatividade, inteligência e diversidade dos artistas de Porto Alegre. Teremos espetáculos maravilhosos de teatro, performance, circo, dança, palhaços para adultos, Shakespeare para crianças. Temos artista consagrados revelando a força da nossa história e uma nova geração mostrando que nosso futuro é promissor. 

 

A programação do Em Cena é feita de três momentos de encontros: o do público com as peças, na mostra de espetáculos; o Reflexões em Cena, que vem ganhando cada vez mais força dentro da nossa programação esse ano, inclusive, contamos com a participação de curadores especializados, como Adriana Jorgge, Carol Anchieta, Patricia Leonardelli e Thiago Pirajira para que possamos pensar juntos, criar dúvidas, conversar de perto entre artistas, público e pesquisadores; e o ponto de encontro, que traz um espaço de relaxamento, com bar, música e festa. Faz parte da programação do Ponto de Encontro festas-shows-performances divertidas e radicais da Sessão Maldita. Além, é claro, da linda parceria com o Agulha e Linha para shows e performances.

 

Apresentar essa programação na nossa cidade nesses tempos doentes é uma imensa alegria que devemos a algumas pessoas que cruzam nosso caminho. Um salve aos nossos patrocinadores, apoiadores e realizador. E um salve aos artistas brasileiros que merecem todos aplausos do mundo. Um salve ao público de teatro! Um salve aos festivais brasileiros!

 

Evoé! Merda!

Fernando Zugno

Diretor Geral